Em Novembro de 2007, foi publicado um estudo major que analisava diversos estudos realizados sobre o risco relativo de sofrer de diferentes tipos de cancro e os diferentes estilos de vida. Este estudo combina investigações de referência com conhecimentos científicos internacionais, e foi publicado juntamente com o Fundo Mundial para a Investigação do Cancro (WCRF) e Instituto Americano para a Investigação do Cancro (AICR). Este é o estudo mais completo acerca da relação existente entre a dieta, a composição corporal, a actividade física e os diferentes tipos de cancro.
Alguns cancros podem ser prevenidos
Danos no DNA (material genético) promovem cancro, mas apenas 5 a 10% dos cancros são herdados directamente, e um indivíduo com herança de genes promotores de cancro podem não desenvolver cancro necessariamente (mas têm um risco acrescido quando comparado com a população em geral). A exposição a factores ambientais que possam causar dano genético é de longe o factor mais importante, que irá determinar ou não o desenvolvimento desta doença. Contudo, nem todos os carcinogénicos ambientais (substâncias promotoras de cancro) podem ser evitados, tal como o fumo do tabaco, a radiação e a infecção; no entanto, existem muitos factores na nossa vida quotidiana que se podem modificar para prevenir os danos no nosso DNA, como ter uma dieta e um estilo de vida saudáveis.
Origem do estudo
Desde o primeiro relatório da WCRF, à dez anos atrás, a investigação sobre a prevenção do cancro tem aumentado enormemente e têm sido desenvolvidos novos e mais eficazes métodos electrónicos, para a análise e avaliação dos dados. A necessidade de um estudo actualizado era clara.
Durante 5 anos, mais de 20 cientistas de renome mundial, analisaram uma série de relatórios sistemáticos, escolhidos especialmente para a ocasião, que reviam os estudos científicos elaborados em todo o mundo, com o objectivo de estudar de que modo as modificações no estilo de vida afectam o risco de cancro (WCRF/AICR 2007).
Em função da qualidade e das fortes evidências, avaliou-se se a relação causal ou protectora entre determinadas combinações, como a dieta, nutrientes, composição corporal e actividade física, é convincente, provável ou limitativa. Estima-se que quando o peso acumulado das provas epidemológicas, experimentais e de descobertas biológicas é consistente, objectivo, sólido, coerente, recorrente e credível, a relação causal é mais provável. Individualmente, nenhum destes factores é suficiente para inferir uma relação causal. Este artigo destaca as relações causais convincentes e prováveis.
Actividade física
Embora o nosso corpo tenha sido concebido para ter uma actividade física regular, nos últimos anos, especialmente nos países mais desenvolvidos, os níveis de actividade física têm vindo a diminuir progressivamente.
Os empregos são mais sedentários, a maioria das viagens são feitas em veículos motorizados, as tarefas domésticas são realizadas por máquinas desenvolvidas e, nos tempos livres, substitui-se as actividades ao ar livre pela televisão ou jogos de computador.
A falta de actividade física é provavelmente um importante factor para o excesso de peso e obesidade, os quais aumentam o risco de alguns cancros. O estudo defende a teoria geral de que o homem tem evoluído e se adaptado para ser activo durante toda a sua vida, e o seu estilo de vida sedentário pode ser prejudicial para a saúde.
Conclusão
Existem provas sólidas de que a actividade física protege o cancro do cólon e , provavelmente também, o cancro do endométrio e da mama, em mulheres pós-menopáusicas. As evidências sugerem que todos os tipos e níveis de actividade física podem ter um efeito protector, mas os dados sobre actividade física específicos são limitados.
Gordura Corporal
Como resposta à actual situação de abundância, surgiu uma nova preocupação relacionada com a saúde: a possibilidade de uma pandemia de excesso de peso e obesidade. Os mecanismos pelos quais a gordura corporal aumenta o risco de cancro não estão totalmente compreendidos. No entanto, as evidências indicam que:
- a obesidade, especialmente a gordura abdominal, altera para valores acima do normal, os níveis de certas hormonas e factores de crescimento, que provocam o desenvolvimento das células cancerosas. Por exemplo, a elevada produção de insulina aumenta o risco de cancro do cólon e endométrio, e possivelmente o cancro do pâncreas e rim; o excesso de leptina no sangue está associado a um aumento do risco de cancro da próstata e rectal.
- a obesidade caracteriza-se por ser um estado inflamatório crónico de baixo grau. A inflamação é uma resposta fisiológica a uma infecção ou trauma, que numa fase aguda pode ser útil. Contudo, a inflamação crónica pode danificar o DNA e favorecer o aparecimento de cancro.
Conclusão
A relação causal entre o aumento de gordura corporal e o cancro é mais forte actualmente do que na década de 90. Especificamente, existem evidências concretas de que existe uma relação causal entre o aumento de gordura corporal e o cancro do esófago, pâncreas, cólon, endométrio, mama e rins (em mulheres pós-menopáusicas), e provavelmente também com o cancro da vesícula biliar, tanto directa como indirectamente mediante a formação de pedras na vesícula. Pelo contrário, é provável que o aumento da gordura corporal actue como protecção contra o cancro da mama, nas mulheres pré-menopáusicas; no entanto, ainda não foi identificado nenhum mecanismo que explique este efeito.
Amamentação
Tradicionalmente, o principal foco de atenção quanto à amamentação são as propriedades benéficas do leite materno para o processo de crescimento do recém-nascido; contudo, pesquisas recentes indicam vantagens da amamentação tanto para o recém-nascido como para a mãe. Os últimos estudos revelam o facto de que quanto mais tempo a mulher amamentar, maior a protecção contra o cancro da mama. Acredita-se que as alterações hormonais estão associadas à redução dos ciclos menstruais, responsáveis por este efeito.
Conclusão
Existem provas consistentes que demonstram que o aleitamento materno protege a mãe do cancro da mama em todas as idades, mesmo após a menopausa.
Fibra dietética
A fibra dietética encontra-se principalmente nos cereais, raízes, tubérculos, leguminosas, frutas e legumes. Embora não haja uma relação significativa entre certos alimentos ricos em hidratos de carbono complexos e o cancro, existem provas que mostram o efeito protector da fibra contra o cancro do intestino. Este componente aumenta o peso das fezes e acelera o trânsito intestinal, provavelmente também a passagem de substâncias cancerígenas no organismo, mas as fibras são também fermentadas no intestino, pelas bactérias intestinais, produzindo ácidos gordos de cadeia curta que ajudam a manter saudável as células intestinais.
Conclusão
Os alimentos que contêm fibra dietética protegem contra o cancro do intestino.
Frutas e Legumes
As frutas e legumes são as maiores fontes de vitaminas, minerais e fitonutrientes na dieta. No geral, ao elaborar o relatório, foi difícil descrever a associação entre certos frutos e produtos hortícolas e o cancro, devido à combinação complexa de nutrientes que cada alimento contém, uma vez que todos eles podem contribuir para este efeito protector. Estudos analisados, com palavras-chave como o caroteno, licopeno (encontrado no tomate), vitaminna C e B e selénio, apresentaram mais informações. Estes componentes activos protegem o DNA contra danos oxidativos, inibem a activação dos agentes carcinogénicos no organismo e podem ainda inibir o crescimento, ou causar a morte, das células cancerosas.
Conclusão
O estudo mostra que, apesar de tudo, as evidências de que as frutas e vegetais protegem contra o cancro é menos conclusivo do que o que se acreditava. É provável que as frutas e vegetais protejam contra o cancro da boca, garganta, esófago, pulmão e estômago. Os alimentos que provavelmente protegem contra certos cancros são:
- alho picado contra o cancro gástrico (o facto de ser picado faz com que se liberte uma enzima que estimula a formação de composto de enxofre benéficos;
- carotenóides contra o cancro da boca, garganta e pulmões;
- licopeno (presente no tomate, especialmente se este estiver cozinhado, como molhos de tomate, sopas e ketchup), contra o cancro da próstata;
- vitamina C contra o cancro do esófago.
Álcool
O álcool tem vindo a ser consumido, na maioria das sociedades, desde a época do paleolítico ou mais cedo ainda. Cerveja, vinho e outras bebidas espirituosas são muito populares e, embora já seja conhecido que o seu consumo prolongado causa cirrose hepática, têm sido a ser descobertos outros efeitos nocivos deste. O etanol é classificado como um agente cancerígeno para o ser humano, e cm tal, promove o aparecimento de cancro, independentemente do tipo de bebida em questão. Não foi possível observar nenhum nível de consumo de álcool que não aumente o risco de cancro de pele. No entanto, quanto maior o consumo, maior o risco deste aparecer.
Conclusão
As evidências são mais fortes do que antes; as provas são cada vez mais consistentes, quanto à relação causal entre o consumo de álcool e o cancro da boca, garganta, esófago, cólon (em homens) e cancro da mama (em mulheres). Além disso, é provável que há já um risco acrescido nas mulheres, entre o consumo de bebidas alcoólicas e o cancro hepático e intestinal.
Carne, aves, peixe e ovos
Acredita-se que o homem evoluiu de omnívoro e que uma dieta saudável inclui alimentos de origem vegetal e animal (como carne, frango, peixe e ovos). Estes alimentos são boas fontes de proteína de alta qualidade e de muitos micronutrientes essenciais. Contudo, o consumo de carne vermelha (por exemplo a carne de bovino e suíno) aumenta o nível dos compostos N.nitroso no organismo, devido ao seu elevado conteúdo em ferro-heme. Além disso, as carnes processadas, como o presunto, o bacon, enchidos, salsicha tipo Viena e cachorros quentes, apresentam nitratos, nitritos e outros conservantes que são adicionados durante o processo de cura. Estes compostos são cancerígenos para o ser humano, provavelmente devido à sua conversão em N-nitroso no organismo.
Conclusão
Não existem provas conclusivas de que a continuação do consumo de grandes quantidades de carne vermelha e processada pode aumentar o risco de cancro no intestino.
Leite e produtos lácteos
O leite e os produtos derivados, como o queijo, a manteiga, ghee (um tipo de manteiga, proveniente principalmente da Índia e Egipto) e iogurte são consumidos desde quando o homem se dedicou a domesticar os animais ruminantes mais adequados.
O cálcio na dieta pode ser considerado como um indicador do consumo diário de produtos lácteos em zonas industrializadas, como a Europa. Acredita-se que o cálcio protege contra o cancro e influencia directamente o crescimento e a renovação celular e, associado a ácidos gordos e à bilis, impede o dano do revestimento intestinal. Além disso, o leite contém substâncias bioactivas que também desempenham um papel protector. Por outro lado, uma ingestão elevada de cálcio pode aumentar a proliferação celular na próstata.
Conclusão
As evidências apontam para diferentes direcções, quando se relaciona cancro com os produtos lácteos. O leite, provavelmente, protege contra o cancro cólon rectal e talvez também contra o cancro da bexiga. Não há uma relação causal entre as dietas ricas em cálcio e o cancro da próstata, assim cm não há dados conclusivos acerca do elevado consumo destes alimentos e este tipo de cancro.
Gorduras, óleos, açúcares e sal
As gorduras e os óleos são os constituintes mais energéticos da nossa dieta e os açúcares são os hidratos de carbono com sabor doce. As gorduras e os açúcares são os componentes de muitos alimentos e bebidas com elevada densidade calórica, o que contribui para o excesso de peso e, consequentemente, para o aumento do risco de cancro. No entanto, não há uma associação directa sólida que confirme a relação das gorduras, óleos e açúcares com o cancro. O sal (cloreto de sódio) é essencial para o funcionamento normal do organismo, e antigamente tinha uma existência preciosa. Actualmente, o sal é abundante e é encontrado principalmente nos alimentos conservados em sal e salgados de carne ou peixe, azeitonas, em alimentos processados como as salsichas, alimentos pré-preparados, caldos de carne, e também nas batatas fritas, nozes e outros aperitivos salgados. Estudos mostram que o elevado consumo de sal prejudica o estômago, aumenta a produção de composto N-nitrosos e estimula o aparecimento de substâncias cancerígenas no estômago.
Conclusão
O elevado consumo de sal, e alimentos conservados neste, contribui para o aumento do risco de cancro gástrico.
Uma contribuição significativa
As doenças não transmissíveis, e em particular o cancro, são um dos principais desafios para a saúde pública mundial. O presente estudo, faz uma revisão das evidencias existentes, oferecendo uma contribuição notória para o conhecimento do cancro, uma vez que determina o modo como a alimentação, nutrição, actividade física e composição corporal podem alterar o risco de cancro, e destaca os factores mais importantes. Esta informação deverá ser usada em conjunto com as recomendações dos governos nacionais, com o objectivo de promover estilos de vida saudáveis.
A escolha de um estilo de vida saudável e de uma dieta adequada nos primeiros anos de vida, e em toda a vida adulta, ajuda a reduzir o risco de certas doenças como a obesidade, as doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, diabetes e alguns tipos de cancro. Para ter uma dieta saudável é preciso ter uma dieta equilibrada, consumindo certos alimentos com moderação e incluindo uma grande variedade de alimentos diferentes.
Referências
- WCRF/AICR (1997). Food, Nutrition and the Prevention of Cancer – a Global Perspective. Washington D.C.
- WCRF/AICR (2007). Food, Nutrition, Physical Activity and the Prevention of Cancer – a Global Perspective. Washington D.C. Disponível em: www.dietandcancerreport.org