Este é o último, de uma série de artigos, que analisou a prevenção da obesidade infantil. Este artigo irá apresentar uma conclusão geral, resultante dos estudos anteriores e que pode ser útil na prestação de informações e melhorar as intervenções futuras.
Análises exaustivas de identificação das melhores estratégias, na prevenção da obesidade infantil, têm sido feitas recentemente1,2. Contudo, os especialistas ainda não conseguiram chegar a um plano específico para delinear intervenções futuras. Isto não é surpresa considerando as diferenças em termos de alcance e concepção dos estudos individuais. No entanto, atende-se a uma série de considerações fundamentais, que servirão como orientações em programas de prevenção da obesidade infantil no futuro.
Actividade física
Para evitar a redução de peso em crianças que não necessitam, ou de emagrecimentos pouco saudáveis, e evitar também práticas que promovam a estigmatização das crianças com excesso de peso, qualquer intervenção geral dirigida a uma população pediátrica, deve centrar-se sobre uma alimentação saudável, um estilo de vida activo e fomentar uma auto-estima elevada, no lugar de visar a perda de peso ou um peso corporal ideal1. Os especialistas concluíram que a actividade física é um componente essencial em qualquer intervenção destinada a diminuir o nível de gordura corporal. A redução do tempo dispendido em actividades sedentárias é outro passo importante. Doak et al2 destacou o sucesso das intervenções, destinadas a reduzir o peso corporal, na redução do tempo que as crianças passam a ver televisão, e recomendou que esta vertente se incluísse sempre que as crianças passem muito tempo assistindo televisão ou jogando computador.
Participação dos interessados
A razão porque não se pode identificar uma medida única para a prevenção da obesidade, deve-se ao facto desta exigir abordagens diferentes de acordo com as várias situações. As iniciativas melhor sucedidas são aquelas que enquadram o programa de intervenção às necessidades específicas das crianças (por idades, sexo e etnia), num trabalho criativo tendo em consideração as instalações e capacidades disponíveis e, sobretudo, tentando envolver as partes interessadas durante o desenvolvimento, implementação e avaliação do programa. As partes interessadas são aquelas pessoas em que o programa de intervenção afecta directamente, ou seja, as crianças, professore, pais e pessoas influentes na comunidade. A sua participação não serve só para adaptar o programa às suas necessidades, mas também cria um sentimento de pertença e de vontade de ter êxito. A participação destes é especialmente importante em programas que visem grupos minoritários.
Âmbito e cenário de aplicação
A escola é considerada a ambiente essencial na promoção de um peso saudável, uma vez que permite o acesso à maioria da população infantil1,2. Além de ser um lugar ideal para educar as crianças sobre os estilos de vida saudáveis, as escolas podem fazer mudanças concretas e positivas nos padrões alimentares e exercício físico, oferecendo alimentos saudáveis nas cantinas e criando condições para a realização de actividade física durante o horário escolar, pausas e actividades extracurriculares. No entanto, idealmente seriam as escolas que serviriam de centros de desenvolvimento de programas mais extensos, que envolvessem as famílias e toda a comunidade. Não se deve subestimar a influência dos pais e família; pelo contrário, deve-se incorporar no programa de sensibilização a participação activa destes. Do mesmo modo, a participação pública é fundamental no envolvimento da comunidade em geral e devem ser mobilizadas as competências, conhecimentos e recursos para actuar em relação aos problemas de saúde comunitária.
Esta é a maneira como fazemos
Flynn et al1 destaca o facto, das características pessoais do coordenador do programa, ter um impacto importante no sucesso deste. Para além de possuir competências de comunicação e motivação, é importante que este seja aceite do ponto de vista cultural, e que sirva de modelo a seguir. Assim, recomenda-se que se tenha em conta as qualidades do coordenador do programa na elaboração e preparação da intervenção.
Seguindo uma mudança positiva
A grande maioria dos estudos realizados até à data, provocaram mudanças a curto prazo, acompanhadas de uma melhoria geral do peso1,2.. No entanto, a há quem argumente que promover um peso adequado na população infantil pode ter efeitos negativos na auto-imagem corporal e causar uma estigmatização das crianças obesas ou com excesso de peso (existe pouca evidência deste facto). Flinn et al1 sugere que, programas destinados a reduzir a obesidade infantil poderiam maximizar os recursos investidos em doenças crónicas, as doenças cardíacas e o cancro, se realizados em grande escala, uma vez que as estratégias para as prevenir são essencialmente as mesmas.
Referências
- Flynn M.A.T. et al (2006). Reducing obesity and related chronic disease risk in children and youth: a syntheses of evidence with best practice recommendations. Obesity Reviews 7 (suppl 1):7-66
- Doak C.M. et al (2006). The prevention of overweight and obesity in children and adolescents: a review of interventions and programmes. Obesity Reviews 7:111-136